quarta-feira, janeiro 14, 2004

The Modfather




Há relativamente pouco tempo, a melhor rádio nacional fm de música internacional (a Radar, claro) começou a incluir insistentemente na sua «playlist» as canções do Sr.Paul Weller, que não é propriamente um novato nestas andanças...

Paul Weller é um dos mais importantes compositores ingleses de sempre, disso não tenhamos dúvidas. Cresceu do punk/new wave de 76 como poucos cresceram - sem no entanto cristalizar demasiado como um Elvis Costello, por ex - tornou os The Jam numa das maiores referência de sempre do rock/pop/soul inglês, coloriu o cinzentismo britânico dos anos 80 com os fabulosos - inovadores e incompreendidos- The Style Council, e reergueu-se quando muitos o achavam acabado («Has my fire really gone out?») - para uma notável carreira a solo, contra tudo e todos. Pessoalmente, Weller foi o meu compositor contemporâneo, depois de Bolan e antes de Cope, trespassados todos pelo Bowie de saltos altos e baixos e pelos incontornáveis Brian Wilson, Van Morrisson e Morrissey, só para citar alguns de muitos. Além do mais, a consciência política de Weller sempre o pôs à frente de muitos outros fogos fátuos («Keep on Burning»). Volto a dizer, para mim só é possível compreender a história da cultura pop dedicando um capítulo inteiro a este senhor, que é hoje em Inglaterra um valor nacional reconhecido que conseguiu unir gerações.

Porque é que Weller foi sempre ignorado em Portugal? Será que a sua costela mod o tornou num fenomeno local, incompreendido pela cultura pop portuguesa, se é que tal existe?

A Radar passa Weller, e o ano passado, no concerto do Joe Jackson (Lisboa, Aula Magna), vi um miúdo cum uma parka e uma target t-shirt com o logo dos THE JAM. Nunca nada está perdido...



PS- As carreiras longas têm altos e baixos. É por isso que são longas. Hoje, no Blitz, o Sr.Jorge Mourinha analisa «O Caminho da Felicidade II», dos Delfins, com uma perspectiva pouco desenvolvida sobre o fenómeno do sucesso e do fracasso (que é uma coisa que a mim me fascina, pessoalmente - assunto já espelhado no meu 1º livro «A Queda de um Homem»). Sempre me fascinei com as voltas e trocas que afectam as carreiras artísticas, da pintura à literatura, mas especialmente na música popular, onde nomes como o próprio Weller, Brian Wilson, Scott Walker, Julian Cope, Elton John, Lou Reed e os próprios Stones me têm fornecido muita matéria de atenção. Mas antes de proclamarem generalidades genéricas- e de darem sugestões infantilmente descabidas - talvez os nossos críticos, que vivem nos seus escritórios e lares (e neste caso nalgumas salas de cinema eh eh), devessem ter acesso às tão em voga análises de mercado, elaboradas pelas empresas competentes para o efeito. Muito boa gente iria ter algumas (des)agradáveis surpresas em relação às opiniões dos portugueses...